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Teocracia em Vertigem | Crítica

Teocracia em Vertigem | Crítica

Crítica de Teocracia em Vertigem, especial de Natal do Porta dos FundosTeocracia em Vertigem

Ano: 2020

Direção: Rodrigo Van Der Put

Roteiro: Fábio Porchat

Elenco: Antonio Tabet, Evelyn Castro, Fabio Porchat, Gabriel Totoro, Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Tereza Cristina, Yuri Marçal, Noemia Oliveira, Rafael Infante, Renato Góes, Rafael Portugal, Thati Lopes, Daniel Furlan, Raul Chequer, Leandro Ramos, Hélio De La Peña, Marco Gonçalves, Clarice Falcão, Emicida, Marcos Palmeira

Embora seja narrada no livro dos livros, a vida e obra de Jesus Cristo por vezes precisa de alguma explicação. Interpretar o texto sagrado ao cristianismo parece tarefa difícil, que demanda um esforço homérico. Mais do que isso: por vezes, é preciso desenhar — ou cantar, como no caso de Teocracia em Vertigem, especial de natal de 2020, lançado pelo Porta dos Fundos.

No filme (um média-metragem, por definição), somos guiados pela voz de Clarice Falcão, que narra o pseudo-documentário na busca para entender as razões da crucificação de Jesus (Fábio Porchat). Para isso, são ouvidos os relatos de amigos, inimigos, algozes e até vítimas dos ditos ‘milagres’ do filho de Deus. E de começo, somos alertados: a história é baseada em fatos reais e atuais.

No aspecto técnico, a produção é excelente. A fotografia é magnífica, os figurinos são primorosamente montados como já é comum nas produções do Porta. A montagem é sensacional e a trilha sonora, impécável. A produtora sempre fez vídeos de qualidade, e com o passar dos anos — principalmente após ser adquirida pela Viacom — vem subindo o nível de qualidade técnica em suas criações.

O elenco conta com diversas participações especiais: desde Emicida a Yuri Marçal, passando por nomes da teledramaturgia brasileira e alguns destaques do transporte alternativo do Rio de Janeiro. Além disso, o formato de documentário facilitou as gravações, pois evitou contato próximo entre os atores e qualquer tipo de aglomeração. Montagem e direção trabalharam em perfeita sincronia para não quebrar o ritmo da narrativa.

Mas sei que tu não está lendo esse texto para saber se a iluminação é boa, ou se os atores foram bem. Ninguém debate Porta dos Fundos por sua aparência; o que interessa é o conteúdo.

Crítica de Teocracia em Vertigem, especial de Natal do Porta dos Fundos

Em 2019, o Especial de Natal do Porta dos Fundos provavelmente passaria despercebido. Embora tenha sido lançado na Netflix, o roteiro vacilante e uma ideia um tanto quanto batida não foram suficientes para atrair atenção, não fosse um erro cometido pelos roteiristas: insinuar que Jesus Cristo poderia — veja você — ser homossexual.

Este crime contra a humanidade foi devidamente retaliado pelos cidadãos de bem, que deixaram presentes de amor na sede da produtora, e corajosamente fugiram do país. Foram organizados movimentos de boicote à Netflix, que certamente sentiu no bolso a indignação da família tradicional brasileira. O especial foi levado à justiça, numa tentativa de censura, que durou exatas 24 horas. Esse imbróglio gerou especulação; ninguém afirmava que o Porta faria um novo especial em 2020, mas a possibilidade também não era descartada.

O mistério acabou com o lançamento do trailer, além das diversas entrevistas dadas pelos líderes da produtora. O especial de Natal não só aconteceria em 2020, como seria o mais afrontoso de todos os tempos. Em 2018, Jesus era uma pessoa tóxica e controladora. Em 2019, se descobriu homossexual após passar um tempo no deserto. Em 2020, tem sua vida revirada para sanar uma dúvida: afinal, a crucificação de Jesus foi ou não foi golpe?

Através de entrevistas com figuras carimbadas da Bíblia, o espectador vai identificando acontecimentos do passado recente da política brasileira. Judas Iscariotes (Daniel Furlan) se sentiu abandonado por Jesus, e enviou-lhe uma carta relatando seu descontentamento. Após ser ignorado, Judas não hesita em entregar o ex-amigo para seus opositores. Lembra alguém? A própria sequência inicial — a votação que liberta o charmoso Barrabás (Renato Góes) de sua penitência — dá o tom do média, e não deixa nenhuma dúvida sobre o que esperar.

O roteiro é brilhante. Não só por suas referências diretas aos acontecimentos da história recente do Brasil, mas por costurar a crítica com a vida de Jesus, usando um humor sarcástico como linha e o formato de documentário como agulha. A todo momento, a produção se volta para correntes de pensamento atuais. O parente de um amigo de um conhecido que estava presente/trabalha no lugar e pode afirmar que tal coisa é mentira é uma narrativa atual, mas que serviria para questionar se o dito “Messias” realmente ressuscitou ou se nunca esteve morto.

Sangue? Daquela cor?”

Mas o teórico conspiracionista sempre será um alvo fácil para a galhofa. Teocracia vai além. Com calma e talento, o filme explica ao cristão de direita que sua forma de pensar é contrária ao que Jesus pregava. Que se viesse ao mundo hoje, Jesus seria considerado criminoso, lunático e perigoso, e possivelmente acabaria morto novamente. Se 2020 ainda não tinha nos surpreendido o suficiente, o final do ano trouxe o Porta dos Fundos explicando a palavra de Deus aos cristãos.

Crítica de Teocracia em Vertigem, especial de Natal do Porta dos Fundos

A narrativa vai e vem na figura de Jesus, ora alinhando-o com Lula, ora aproximando-o de Bolsonaro – a depender da pessoa contando o relato. Para Maria (Evelyn Castro), Jesus era santo e só fazia o bem; Para Peçanhas (Antônio Tabet), não passava de um meliante desordeiro. Essa história está na Bíblia; o Porta dos Fundos apenas a contemporizou, inserindo elementos muito brasileiros, que encaixaram-se perfeitamente.

Mas a profundidade da trama não tira a graça de suas piadas mais superficiais — ao contrário do que aconteceu em 2019, que o roteiro se perdeu sobre si mesmo — e é possível dar boas risadas ao longo do filme. Piadas toscas mesmo, como Nicodemus (Gabriel Totoro) se esquivando da responsabilidade de corroborar a história de José de Arimateia (Rafael Portugal) ou Pedro (Leandro Ramos) explicando como Jesus brincava de esconde-esconde.

A sequência final, que pode ser considerada o monólogo de Jesus, quebra a quarta parede e traz um diálogo direto com os detratores do Porta dos Fundos. Vestindo-se como filho de Deus, Porchat conversa com o público, explicando que foi preciso desenhar o que Jesus pedia, e resolve ir além. Para facilitar a compreensão, o especial de natal se encerra com uma música, em que Jesus diz que não vai voltar. Até já tentou, como mulher, negro e travesti, mas foi morto nas três vezes, e agora a Terra é problema nosso. Se nem Jesus é aceito pelos cristãos, quem mais será?

O ano de 2020 não fugirá à tradição, e certamente virão problemas e polêmicas para o Porta dos Fundos, mas nada que não seja esperado. Mesmo que a hashtag #NãoAssista tenha sido o mote da divulgação, o especial poderá deixar muita gente ofendida; não por ser ofensivo, vejam bem, mas por retratar tão fielmente a incoerência de certo grupo de pessoas. Ninguém gosta de ser o motivo de risada dos outros, e o Porta dá ao conspiracionista, ao fundamentalista, ao representante da extrema-direita e todos os outros integrantes de uma corja com preguiça de pensar toda a munição que precisam: “Vocês estão sendo zoados, e estamos fazendo isso através da religião, respingando na política e no ‘mito’ que governa o país”.

É uma mistura extremamente volátil, preparada e entregue propositalmente, com o claro objetivo de confundir a quem se ofende. O especial não é ofensivo; não desrespeita a fé nem os dogmas; simplesmente aponta as incongruências de caráter do fã clube — como bem referenciado no filme. Ninguém fala mal de Deus ou Jesus, nem de qualquer outra figura pública. Até a Judas é dado o benefício da dúvida. A quem criticar Teocracia em Vertigem por brincar com religião, recomendo que assista de novo. Claramente não entendeu a mensagem.

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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