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O Príncipe do Egito – Como ir além da história bíblica

O Príncipe do Egito – Como ir além da história bíblica

Por Guilherme Beiró

Contar histórias religiosas no cinema nunca é fácil. Seja pela delicadeza dos temas, seja pelo risco de falar somente com um público ou, ainda pior, ser ofensivo a outros. Ao contar a História de Moisés – um dos principais profetas do cristianismo, judaísmo e islamismo -, O Príncipe do Egito (1998) consegue algo raro no cinema hollywoodiano, ser honesto, genuinamente emocionante e delicado.

O deserto nunca foi tão gigantesco, árido e ameaçador. A cena de abertura consegue um feito raro, como a impecável sequência de abertura de O Rei Leão (1994), resume em uma sequência e música tudo que tu precisa saber para se aventurar naquela história. A trilha sonora é imensa, passando com perfeição a noção de escala do sofrimento daquele povo nas areias do Egito. Intercalando entre o coro de escravos em prantos e a delicada prece de uma mãe, a fantástica trilha de Hans Zimmer (Inception) e Stephen Schwartz (Pocahontas) consegue com perfeição nos apresentar aquele que será nosso tema principal na história: liberdade.

Ao invés de nos narrar a história conhecida do profeta, já contada e recontada no cinema, o filme nos apresenta uma visão nova do personagem. Moisés, de família de escravos, foi criado como filho da realeza, onde viveu uma alegre e feliz vida como nobre. Seu melhor amigo é seu irmão, Ramsés, que por ser mais velho é o herdeiro ao trono. Ambos vivem uma vida de alegrias e irresponsabilidades inerentes de sua juventude e classe social. Suas aventuras pela cidade constantemente terminam em breves sermões que, no fim do dia, não tem grande impacto.

É importante destacar a beleza da animação e a escala. Os palácios e os monumentos são gigantescos. Os designs são muito bem estilizados e cada frame poderia ser um quadro. E é em uma das cenas mais bonitas do filme que o Faraó, enquadrado ao fundo por sua estátua no meio do deserto, tem a discussão com seus filhos que determinaria vários dos rumos da história. Ramsés teme ser “o link fraco”, um mau rei, e que assim suje o nome de sua dinastia. É esta questão que irá guiá-lo e, inevitavelmente, colocá-lo contra seu irmão.

A trilha sonora é outro ponto que merece atenção, a composição de Hans Zimmer e Stephen Schwartz é fantástica. Intercalando constantemente temas de cada um dos personagens, a trilha é usada com um poder narrativo incomum em grandes musicais, ainda mais em animações. E é quando, confrontado com a verdade de sua origem, Moisés é levado, pela primeira vez em sua vida, a olhar de verdade os escravos que construíram o reino do qual ele usufrui. Pela primeira vez, ouvimos a música de Moisés e ela é gradativamente trocada pela música tema de sua mãe e a dos escravos. Não é sutil, mas é efetivo e incrivelmente bem executado. A voz, a música-tema e motivação daquele personagem, agora ele sabia que não eram mais só dele, eram de um povo inteiro que sofria. Ao confrontar o Faraó sobre a verdade, Moisés pela primeira vez não se sente em casa no palácio que teve como lar desde sempre. Pela primeira vez, ele não conseguia olhar para a sua vida sem ver o povo sobre os qual ela foi erguida.

Moisés parte rumo ao deserto, abandonando sua vida como príncipe do Egito. Sem saber mais quem era e culpado pela vida que levava, ele agora enfrentava a imensidão do deserto, por onde vagou até ser acudido por escravos fugidos que viviam livres em um pequeno oásis no meio da areia. Acolhido por Jethro, ancião do vilarejo, Moisés é apresentado a uma nova vida e valores. Acolhido por aquele povo que sequer sabia quem ele era, a sua vida foi gradativamente mudando. Mais uma vez a trilha sonora é utilizada com perfeição, em uma música vemos a passagem de tempo enquanto na voz de Jethro somos indagados: “Se um homem perder tudo o que tem, ele realmente perde seu valor? Ou é o começo de um renascimento? Como medir o valor de um homem? Força, tamanho ou capacidade? Pelo que ele ganhou ou pelo que doou?”. Nessa passagem de tempo, embalada pela voz de Jethro, assistimos Moisés crescendo e descobrindo novos valores, belezas e objetivos em sua vida. Vemos ele crescendo como pessoa, descobrindo o amor, casando-se e, finalmente, entendendo sua função naquele mundo. E é ali, ciente de seu novo lugar, junto de seu povo e finalmente feliz, que Moisés é confrontando por Deus.

Deus, divino ou não, tem a função narrativa da consciência. Surgido na forma de um arbusto em chamas, Ele fala a Moisés. Em uma cena visualmente impactante, Deus dá a missão para que ele volte e liberte seu povo. Moisés sequer hesita, aceita sua missão e ruma, mais uma vez, através do deserto sabendo que do outro lado de sua jornada está o confronto com toda a história e vida que ele acreditava ser a dele.

Ao retornar seus pais já haviam falecido, Ramsés agora era Faraó, pai de uma criança e poder soberano sobre o Egito, nas palavras dele mesmo “Eu sou a aurora e o crepúsculo”. E talvez seja nesse ponto que o filme faz o maior desvio da história que estamos acostumados a ouvir, os dilemas não são políticos, não são étnicos e muito menos religiosos. O dilema entre aqueles dois personagens é pessoal. Não é Deus Judeu contra Deuses Egípcios, são dois irmãos que se amavam e cresceram juntos em uma situação que nenhum deles um dia imaginou estar, do lado oposto do outro.

Ramsés carrega nos ombros a responsabilidade incumbida por seu pai de não se tornar o “link fraco”. Por sobre ele recai toda a dinastia que ele cresceu sabendo que jamais poderia falhar com. Do outro lado, Moisés, com a visão da dor e os sentimentos de amor por aquele povo que ele demorou tempo demais para entender que também era o dele. Mais uma vez a trilha sonora é utilizada com perfeição em uma sobreposição de vozes que não só estabelece o tamanho do dilema entre eles como, deixa claro que entre eles a maior muralha é uma mágoa, um sentimento de traição que Ramsés sente ao ser ‘trocado’ pelos escravos. Ele não libertaria o povo judeu.

Como o esperado, as pragas recaem sobre o Egito. Deus se faz presente por meio de rios de sangue, gafanhotos, perdas de colheitas e gado. A violência e brutalidade das pragas não é nem um pouco amenizada, as cenas são agressivas e tensas como tem de ser. Porém, nada demove Ramsés de seu objetivo em manter os judeus como escravos até que, como anunciado por Deus, os primogênitos seriam levados. Ramsés, com seu reino destroçado e agora filho morto finalmente liberta Moisés e seu povo.

Enquanto fugiam do Egito, Moisés e seu Povo são perseguidos por Ramsés, louco por ter perdido seu filho e reino. A fuga termina naquele lugar que, imagino que a maioria saiba, o maior milagre atribuído a Moisés acontece, de frente ao Mar Vermelho. Ali, encurralados entre o exército que se aproximava e as águas do mar, Deus fala mais uma vez a Moisés que, tendo certeza de sua fé como nunca, abre o mar para que seu povo possa ser libertado. A cena, contada dezenas de vezes em filmes, séries e outros desenhos, tem possivelmente sua melhor representação. A escala do perigo, bem como a imensidão das paredes de água que se elevavam ao céu, nunca foi tão grande. É uma daquelas cenas feitas, claramente, com paixão e primor técnico. É assustadora, encantadora, mística e mágica na mesma proporção. A trilha, mais uma vez torna aquele mundo fantástico e, ao mesmo tempo, familiar.

Os judeus escapam, depois de séculos como escravos o povo é finalmente liberto por Moisés, um homem nascido como escravo, crescido como príncipe e que demorou tempo demais para ver de verdade o mundo à sua volta. Na cena final do filme vemos, anos depois, o povo judeu florescendo. Moisés, agora mais velho, surge no topo do monte, carregava duas tábuas de pedra com aqueles que seriam os dez mandamentos. A história de O Príncipe do Egito é a história de dois irmãos, a história de duas famílias, a história de um povo e a história de um homem, que muito antes de ouvir a voz de Deus, precisou ouvir a de seu povo para descobrir quem era.

O Príncipe do Egito é um filme atípico, enquanto a maioria dos filmes religiosos usa da vida cotidiana para falar do divino, aqui temos uma história conhecida sobre o divino que nos é apresentada de uma forma nova e, por que não dizer, mais interessante. Deus, a palavra divina e as ordens Dele, nunca foram uma dúvida ou um questionamento para Moisés. O sofrimento de seu povo, depois de visto, jamais foi ignorado ou minimizado. A dor do povo e a voz de Deus nunca foram motivos de hesitação. O dilema, o real drama e dificuldade enfrentada por aquele personagem, foi confrontar seu irmão. Foi enfrentar o peso de se ver, de verdade, e assumir seus erros e pecados. Moisés mais do que atender a um Deus, atendia ao seu povo, sabendo que para isso estaria contra sua própria família seu melhor amigo, seu irmão.

Ramsés, do outro lado desse polo, jamais é mostrado como um Faraó maligno, pelo contrário, em mais de um momento ele é mostrado como compreensivo e bom. Mas era sobre ele que recaía a responsabilidade de não decepcionar seus antepassados e maior medo ganhava agora a forma de seu próprio irmão.

O dilema entre ambos é bem definido, claro e, acima de tudo, relacionável. São dois irmãos chegando no triste ponto onde perceberam que as diferenças entre eles eram muito maiores que as similaridades. Esse embate é muito mais relacionável e próximo do que uma incumbência divina. E este é o grande mérito desse filme, contar uma história religiosa sem jamais esquecer que ela é feita de pessoas. Deus é feito de um povo, é a voz de um povo que Moisés ouviu e, sem pensar duas vezes, decidiu aceitar a missão de libertá-lo. Seu antagonista não é uma religião oposta ou a dúvida da fé, é seu próprio irmão e melhor amigo. E com argumentos e posicionamentos que, dada a posição dele, ele não estava errado. O filme deixa de lado muito do maniqueísmo entre bem e mal, tão presente em histórias religiosas, para nos apresentar um quadro turvo, aonde incumbências e escolhas – religiosas ou familiares – nunca são tão simples ou fáceis como parecem, para nenhum dos lados envolvidos.

O Príncipe do Egito é uma obra de arte esquecida, um filme que se perdeu entre uma péssima campanha de marketing e a estranheza que filmes religiosos causam no grande público. É uma obra repleta de momentos lindos, visuais deslumbrantes, músicas grandiosas e um elenco de dubladores no ponto. É um filme que tem um dos seus maiores méritos no fato de poder ser lido de diversas formas e, talvez por isso, seja tão difícil de esquecer. É uma daquelas raras conjunturas entre animação bem executada, trilha sonora arrebatadora e uma história que consegue ser inesperadamente íntima, delicada e universal. Como toda parábola, religiosa ou não, deve ser.


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