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Crítica de Soul, nova animação da Pixar, no Disney+

Soul 

Ano: 2020

Direção: Pete Docter 

Roteiro: Pete Docter, Mike Jones e Kemp Powers

Elenco (vozes originais):  Jamie Foxx, Tina Fey, Questlove, Phylicia Rashad, Daveed Diggs, Angela Bassett

Pete Docter é, sem dúvidas, o diretor dos filmes mais sentimentais da Pixar. Ele comandou Monstros S.A., Up – Altas Aventuras e Divertida Mente, este último que salvou o estúdio de uma crise criativa que ficou cinco anos sem lançar nenhum projeto condizente ao famoso padrão de qualidade. Enquanto seus longas anteriores exploravam temas delicados como medo, morte e depressão – tudo de forma bem lúdica para explicar para a criançada – Soul, sua nova animação, explora a nossa essência enquanto seres humanos, ousando perguntar “O que faz de você você?”.

Joe Gardner (Jamie Foxx) é um pianista apaixonado por jazz com o sonho de se tornar um famoso músico – mas sem sucesso. Todas suas tentativas de entrar para algum grupo foram frustradas e ele se contenta como professor de música de meio período dando aula para alunos, em sua maioria, desinteressados. Quando recebe uma promoção para lecionar em tempo integral, Joe não fica feliz. Mas no mesmo dia, ele consegue uma oportunidade de tocar na banda da famosa Dorothea Williams (Angela Bassett) e, maravilhado com a notícia, acaba andando distraído na rua, caindo para a sua quase morte.

Ao ter sua alma retirada do corpo e na fila para ir para o pós-vida, Joe se desespera e acaba caindo no pré-vida, onde novas almas são criadas e definem suas personalidades e objetivos antes do nascimento. O músico acaba sendo designado a virar mentor de 22 (Tina Fey), uma alma que existe há centenas de anos e nunca conseguiu ir para a Terra por se recusar a nascer. Ela já teve figuras históricas como Abraham Lincoln, Copérnico, Carl Jung e até mesmo Madre Tereza de Calcutá como mentores e ninguém consegue dar um objetivo de vida para a alma. 22 se interessa pela história do protagonista e juntos os dois tentam fazê-lo voltar para o corpo.

Enquanto não tão graficamente realista quanto o visto em Toy Story 4, Soul não deixa de exibir a qualidade técnica invejável da Pixar. Os personagens são cartunescos, mas enquanto a aventura está acontecendo em Nova York, os ambientes, os carros, os instrumentos musicais são muito bem animados ao ponto que objetos refletem luz da mesma forma que refletiriam na vida real. As cenas com os personagens tocando instrumentos também tem movimentos bem realistas e criados sem a ajuda de captura de movimentos, tudo feito 100% em computadores.

E enquanto o filme se passa na outra dimensão, vemos um lado do estúdio que ainda não vimos antes. Os funcionários são todos abstratos, a escadaria para o pós-vida é incrivelmente belíssima e de tirar o fôlego e existem alguns momentos em que apostam em algo diferente para exprimir a beleza surreal das coisas. Outro exemplo magnífico é o momento em que os humanos atingem o estado de êxtase e são transportados para um ponto entre as duas dimensões. Esta é sem dúvida a animação mais visualmente ambiciosa da Pixar.

E como não poderia faltar em uma produção sobre jazz, a trilha é excelente. As faixas criadas pelo músico Jon Batiste são ótimas, animadas e rítmicas. Em contraste da trilha sinfônica composta pela dupla Trent Reznor e Atticus Ross, que apostam em um clima etéreo e de outro mundo para ditar a atmosfera das cenas ambientadas fora da nossa realidade. Ambos os estilos não poderiam ser mais diferentes, mas aqui ambos co-existem em harmonia.

O roteiro de Docter, co-escrito com Mike Jones e Kemp Powers, não se afasta muito da estrutura que é esperada de animações, com ambos os protagonistas evoluindo durante a aventura aprendendo coisas um com o outro, mas brigando e se separando próximo do terceiro ato apenas para se reconciliarem depois. Mas a previsibilidade do roteiro, que nunca se torna batido, dificilmente afeta muito a experiência, que é excelente. A animação traz reflexões bastantes necessárias sobre a essência do ser humano e existem momentos tão emocionantes sobre a alegria de viver, perseguir as suas paixões e apreciar as pequenas coisas, é perfeito.

Apesar de algumas pontas soltas (Joe menciona uma ex-namorada que nunca volta pra narrativa) e alguns conceitos que ficam meio vagos, o filme é outro acerto da Pixar em um ano em que seu último longa, Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica acabou passando batido pelos espectadores por ser lançado bem no início da pandemia do coronavírus. Soul é maravilhoso, lindíssimo e, acima de tudo, inspirador.

Nota:


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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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