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A esperança está de volta em Superman & Lois

A esperança está de volta em Superman & Lois

Superman and Lois

Episódio: 1 – Piloto

Criação: Greg Berlanti e Todd Helbing

Direção: Lee Toland Krieger

Roteiro: Todd Helbing

Elenco: Tyler Hoechlin, Elizabeth Tulloch, Jordan Elsass, Alexander Garfin, Dylan Walsh, Emmanuelle Chriqui, Erik Valdez, Inde Navarrett

O Superman é essencialmente um personagem antiquado. Essa é a verdade que muitos fãs do azulão (categoria em que eu me encaixo) teimam em aceitar. Criado nos anos 1930 para entreter crianças pobres dos EUA pós-Grande Depressão, o Último Filho de Krypton encontra dificuldades para ser compreendido desde os anos 1960 – quando o cinismo da Guerra do Vietnã acabou com o otimismo que marcava a geração baby boomer. Em um mundo tão cinzento, onde valores morais já não são mais tão claros quanto eram, é cada vez mais difícil aceitar um personagem que é a própria personificação da bondade; o arquétipo do herói em sua forma mais pura. Portanto, “reinseri-lo” na cultura pop, tornando-o relevante novamente, é um desafio antigo da DC e de seus criadores.

Nos últimos anos, o eixo dessa discussão tem sido a interpretação de Zack Snyder para o herói. Em Homem de Aço, tivemos um Superman que faz cara de brabo, tem marra e quebra pescoços quando necessário. Muitos não concordam com essa visão mais sombria, e demoraram apenas alguns anos até aparecer um contraponto a isso no audiovisual. Na segunda temporada de Supergirl, pudemos assistir um Superman que salva o mundo enquanto solta piscadelas para criancinhas. Claro que a proposta juvenil da série exigia uma abordagem assim, mas os fãs da versão mais pueril do personagem finalmente se sentiram representados. O Superman que essas pessoas cresceram lendo e assistindo estava ali.

Por conta dessa recepção calorosa, a CW resolveu apostar em uma série exclusiva, e é aqui que chegamos em Superman & Lois. E como Greg Berlanti & cia reagiram ao desafio explicitado do primeiro parágrafo? A resposta é: com a paternidade. Embora Superman seja capaz de evitar desastres nucleares e salvar o planeta de alienígenas super poderosos, nenhum de seus poderes será capaz de resolver a ansiedade de seu filho adolescente, de desfazer uma demissão, ou de lidar com o luto de perdas familiares. Nesse sentido, a série resolve contrapor o Superman, super-herói mais poderoso da Terra e capaz de (quase) tudo, com Clark Kent, o ser humano falho e mundano. E é aí que mora o coração de Superman & Lois.

Na trama, Superman (Tyler Hoechlin) atende a um chamado do General Lane (Dylan Walsh) para conferir um estranho incidente nuclear. Enquanto isso, Clark Kent e Lois Lane (Elizabeth Tulloch) lidam com as demissões em massa do Planeta Diário, mas uma tragédia familiar os obrigará a voltar para Smallville e resolver problemas inesperados de seus gêmeos Jonathan (Jordan Elsass) e Jordan (Alexander Garfin).

Engana-se quem espera um clima semelhante à Supergirl aqui. Superman & Lois é, em certa medida, uma série melancólica. Quando Clark Kent chega em casa após mais um dia de “trabalho” como super-herói, percebe que perdeu mais uma sessão de terapia de seu filho, que não atendeu às chamadas de sua mãe e que está se distanciando a cada dia mais de sua esposa. A responsabilidade que tomou para si cobra um preço, afinal, e nem a magnitude de seus atos justifica a negligência para com sua família.

É interessante perceber que uma decisão simples de roteiro é capaz de movimentar toda a dinâmica familiar dos Kent. Jonathan é o filho “descolado”, que namora garotas e joga futebol. Jordan é o adolescente “nerd”, que não se encaixa no mundo e sofre de ansiedade social. Embora isso pareça simplório, cria camadas diferentes para a família, que precisa lidar com problemas mundanos e comuns, mesmo que seja extraordinária por essência. A cena em que o Superman cai desacordado do céu e desperta quando sente o filho em perigo é identificável por qualquer pai ou mãe – por maiores que sejam os traumas e medos que vivenciam, nada os impedirá de sair em socorro de um filho.

Embora apresente vícios inerentes às produções da CW – a trilha sonora melodramática que pontua sem sutileza os diálogos, os efeitos especiais artificiais, as atuações canastronas -, Superman & Lois possui um coração gigante. A cena de abertura, que em poucos minutos estabelece toda a visão da série sobre o Superman (e que apresenta a já clássica cena do uniforme que “minha mãe fez”, retirada totalmente da HQ As Quatro Estações), já entrega o que vamos esperar durante os 15 episódios desta primeira temporada.

Talvez aqui, temos um pequeno vislumbre do que as crianças americanas dos anos 1930 sentiram quando pagaram 10 centavos de dólar por aquela pequena história de 23 páginas que mudou a trajetória da cultura pop para sempre. Como é bom ver o Superman!


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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