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WandaVision – Episódio 9: O Grande Final | Crítica

WandaVision – Episódio 9: O Grande Final | Crítica

Crítica de WandaVisionWandaVision

Episódio: 9 – O Grande Final

Criação: Jac Schaeffer

Direção: Matt Shakman

Roteiro: Jac Schaeffer

Elenco: Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Kathryn Hann, Teyonah Parris, Josh Stamberg, Randall Park, Kat Dennings, Asif Ali, Evan Peters

ATENÇÃO: O texto a seguir contém spoilers de Wandavision. Siga por sua conta e risco.

Foi uma longa jornada até aqui. Depois de oito sextas-feiras acompanhando a trajetória de Wanda Maximoff e de seu amado Visão em Westview, em uma trama recheada de mistério e emoção, chegamos ao final de WandaVision. Inevitavelmente, aqueles que passaram horas e horas teorizando sobre seu final ou sobre a aparição do personagem X ou Y acabaram se frustrando, já que o desfecho foi contido e fiel a toda a proposta da série. Mas o fato é que a primeira incursão da Marvel no catálogo do Disney+ se revela um curioso exercício de metaficção, que ganha ainda mais força graças ao carisma magnético de seus personagens e à sensibilidade de seus discursos.

Neste nono e derradeiro episódio, já não há mais o que “apresentar” ao espectador. Todos os conceitos e detalhes da trama foram estabelecidos nos episódios anteriores, especialmente o oitavo (que continua sendo o melhor de todos). Tudo o que resta é o “confronto final”, típico das tramas super heroicas. O “Visão Branco” chega a Westview determinado a destruir sua contraparte colorida, e Agatha tenta a todo custo roubar os poderes de Wanda. Pela primeira vez em toda a série, Jac Schaeffer e Matt Shakman entregam exatamente aquilo que os fãs querem: porradaria.

Exibindo orgulhosamente seu polpudo orçamento em cenas de ação dignas das telonas, o ato final de WandaVision é o que mais se aproxima dos filmes da Casa das Ideias. Todos têm oportunidade de demonstrar pelo menos um pouco de seus poderes, em uma sequência de batalhas de tirar o fôlego. Tanto as lutas de Visão contra Visão, como o conflito de Wanda com Agatha são extremamente eficientes. O mesmo não pode ser dito das pouco inspiradas cenas de Monica Rambeau e dos gêmeos Tommy e Billy – embora sirvam ao propósito de “encher” a trama, dividir a atenção do espectador e criar tensão.

Mas, embora seja a tônica deste capítulo, a ação de O Grande Final aparenta ser meramente uma “concessão” de Schaeffer e Shakman aos fãs “médios”, ou seja, àqueles que buscam produtos de super heróis apenas para ver a pancadaria super-humana. Está bem claro que a proposta da série é outra, bem mais contida e até intimista: mergulhar no luto da protagonista enquanto homenageia as mais importantes sitcoms estadunidenses. A maneira com que WandaVision estabelece a relação afetiva de Wanda com as séries familiares dos EUA é, de certa forma, um reflexo do culto da sociedade americana para com a TV – que não raro é enxergada como um elemento de união familiar, a “cola” que une o pai, a mãe e os filhos em torno de um mesmo evento cotidiano. Wanda enxergava nesse “evento” (o momento que todos deixam de lado suas diferenças para sentar em frente à TV e assistir ao mesmo show) o símbolo da própria existência da família, e é justamente por isso que ela reproduz estes programas em seu delírio estendido.

Dessa forma, fica muito claro que toda a história americana pode ser contada através de suas sitcoms, já que elas sempre foram um espelho das transformações da sociedade. Observe como a visão sexista dos primeiros episódios é gradualmente substituída por um entendimento mais progressista ao longo dos capítulos seguintes. No início da série, Wanda claramente busca se adequar a um modelo pré-determinado, fazendo de tudo para “agradar” seu marido e ser nada mais do que uma boa esposa – impossível haver contraste maior com o clímax da série, que representa justamente a libertação de Wanda enquanto indivíduo (“você não precisa me dizer o que sou”).

Para além disso, WandaVision também tece um singelo comentário sobre o luto. Quando finalmente entendemos todo o contexto que levou ao colapso de Maximoff, no oitavo episódio (repito, o melhor da série), percebemos que a tristeza não deve ser ignorada, sonegada, e sim absorvida. Aceitar as perdas e entender que levaremos parte das pessoas que se foram para sempre em nossas jornadas é a melhor forma de lidar com a dor. O bom gosto e a sensibilidade dos criadores se traduzem no já clássico monólogo de Visão (“o que é o luto, se não o amor que perdura?”) e o tocante bilhete póstumo deixado pelo sintozóide.

WandaVision me parece ser o máximo que a Marvel permitirá ser feito com suas propriedades intelectuais. Não consigo enxergar no horizonte da produtora algo que seja mais ousado do que esta primeira série do Disney+. Mas, apesar de seguir, sim, alguns elementos da malfadada “fórmula” e de fazer concessões aparentemente obrigatórias, WandaVision consegue encontrar sua voz e entregar um produto que além de servir como ótimo entretenimento, acalenta nosso coração com uma mensagem otimista sobre a perda e o luto – algo que infelizmente, é bem mais comum do que deveria em 2021.

Nota:

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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

Comments

  1. Depois de semanas e com uma conclusão satisfatória, posso dizer que gostei muito da série.
    Texto bem escrito, só faltou o Mefisto

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