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Liga da Justiça de Zack Snyder | Crítica

Liga da Justiça de Zack Snyder | Crítica

Crítica de Liga da Justiça de Zack Snyder, o Snyder CutLiga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder’s Justice League)

Ano: 2021

Diretor: Zack Snyder

Roteiro: Chris Terrio

Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Amy Adams, Jeremy Irons, Amber Heard, Diane Lane, Joe Morton, Willem Defoe, Ciarán Hinds, Harry Lennix, Jesse Eisenberg, John Manganiello

A discussão em torno da natureza do já mítico “Snyder Cut” será eterna. Seria esse, afinal, um filme efetivamente novo? Se Zack Snyder não fosse desonestamente cortado pela Warner Bros de Liga da Justiça, certamente seria diferente do monstro de Frankestein que vimos em 2017. Ao mesmo tempo, certamente não seria o que chegou ao HBO Max (e plataformas on demand no Brasil) em março de 2021: nenhuma distribuidora em sã consciência permitiria o lançamento de um filme comercial de 4 horas de duração, contendo palavrões e violência explícita. O filme que deveria ter saído é uma terceira versão que certamente ficará só na imaginação do espectador. O que temos aqui, portanto, é uma versão do diretor de um filme que não existe.

Independente disso, Liga da Justiça de Zack Snyder existe e está entre nós. Com US$ 70 milhões em mãos e carta branca para fazer o que bem entendesse com o material disponível (e um pouco mais), Zack Snyder não economiza no tempo. Câmeras lentas, cenas de sonho, cenas repetidas (sim), redundância nos diálogos. Não há entraves, não há controle editorial: a “besta” está solta. Em um produto feito na medida para agradar seus engajados fãs, Snyder entrega um filme que clama por importância e urgência, mas passa a nítida sensação de ser apenas uma versão longa e sombria da banal trama do original de 2017. O que torna ainda mais cinzenta a discussão sobre a natureza de sua visão, deixando uma dúvida no ar: afinal de contas, esse filme é tão diferente assim do que já vimos?

Boa parte dos defeitos da colcha de retalhos lançada por Joss Whedon continua. O humor desconjuntado ainda está lá, quebrando o ritmo do longa. Ezra Miller faz o que pode, mas não consegue dar vida a um roteiro frágil, lotado de piadas banais e disfuncionais para o seu Barry Allen / Flash. Ben Affleck segue constrangido ao fazer as piadas escritas para Bruce Wayne, totalmente incoerentes com o personagem cínico e amargo visto em Batman v Superman. Existe um grave problema de construção de personagens na Liga da Justiça de Zack Snyder.

A montagem, que já surgia problemática no original, continua causando problemas de ritmo latentes. Se no primeiro o dilema estava justamente em montar um novo filme com o material disponível, mudando seu tom e proposta, neste o problema reside na lentidão e na morosidade. Certamente, se este corte fosse apresentado a produtores, pelo menos uma hora ficaria na sala de edição – isso numa projeção otimista. Praticamente nada acontece nas primeiras duas horas de projeção, a não ser a batalha de Lobo da Estepe com as amazonas – que, aliás, perde muito do impacto e do vigor com o filtro sépia e as câmeras lentas excessivas, marcas de Snyder.

Aliás, assistir a esse filme me fez compreender totalmente as intenções da DC/Warner e boa parte das decisões de Whedon. Ryan Choi (Kai Zheng), que tem mero papel de assistente piadista de Silas Stone, é absolutamente descartável para a trama. Foi acertadíssima a decisão de retirá-lo do filme. A presença do Caçador de Marte (Harry Lennix) também é absolutamente descartável, já que nenhuma de suas ações é necessária para o desencadeamento de acontecimentos da linha narrativa principal. A adição da família russa salva pelo Flash serviu para dar uma dimensão humana à batalha final do filme, que aqui surge asséptica, quase sem consequências – apesar de muito mais agitada e tensa do que a do filme de 2017, devo admitir. Mais cenas de interação entre os personagens se mostraram realmente necessárias, já que isso praticamente inexiste na versão de Snyder. Ou seja, muita coisa aqui realmente fica sobrando e serve tão somente para inchar a trama e deixá-la pesada, longa e até enfadonha em alguns momentos. E muita coisa ficou faltando também, mesmo com quatro horas de duração.

Para quem possui resistências com o estilo marcado de Snyder, certamente este não será um filme agradável de se assistir. O velho problema de condução da narrativa surge turbinado aqui. Liga da Justiça parece, em alguns momentos, mais um projeto de um filme do que um filme. Snyder aposta em “clipes” que servem para contextualizar os personagens sem que efetivamente aquilo faça parte da história: são montagens com fim em si que quebram a narrativa e nos fazem esquecer da história principal. As longas sequências de flashback também comprometem fortemente a imersão. Confesso que quando a lembrança terminava e voltávamos ao “presente”, até já tinha esquecido que aquilo era um flashback.

A falta de traquejo de Snyder para composição dos diálogos é um problema latente. Não existe no longa uma única linha de diálogos que seja marcante ou memorável. Tudo surge de maneira absolutamente funcional e até óbvia, lembrando o tom seco das obras noir, mas sem o charme do subgênero literário. A conversa entre os integrantes sobre a casa que vira fumaça e da fumaça que pode virar casa beira o irritante, tamanha a obviedade e banalidade da metáfora apresentada. Snyder segue sem saber como seres humanos conversam, aparentemente.

A trilha sonora de Junkie XL é intrusiva e repetitiva. Com a intenção de dar um ar épico ao filme, corais e cordas agudas marcam cada aparição dos heróis em tela. Depois de três horas em que isso acontece a cada 10 minutos, é bem difícil de não perceber. A trilha chama atenção para si a todo momento. Felizmente, não assisti no cinema. O barulho seria insuportável.

Existem méritos na obra? Certamente, já que Snyder se beneficia da oportunidade que recebeu para entregar uma obra mais coesa e contextualizada. Afinal, este é o filme com a visão de um único criador. Quem mais aproveita esse movimento é Ray Fisher, que aqui pode demonstrar um pouco da profundidade emocional do Cyborg. Suas participação é muito mais consistente, rompendo com a condição de coadjuvante de luxo que possuía no filme anterior. O meta-humano aqui é parte ativa da equipe e não fica só andando para lá e para cá conforme Bruce Wayne determina. Ainda que o momento do “montinho de dinheiro” seja constrangedor, que a morte de Silas Stone seja sem impacto algum para a trama, e que a cena em que ele reproduz o áudio do pai seja genérica e derivativa (já vimos o mesmo recurso do áudio da pessoa morta ser usado em O Espetacular Homem-Aranha e Ultimato, apenas para ficar em casos recentes), sim, Cyborg está muito melhor aqui.

O vilão também melhora substancialmente com o maior tempo de tela. Aqui, Lobo da Estepe deixa de ser apenas o alienígena assustador e genérico que quer dominar o mundo, para se tornar um personagem com alguma profundidade emocional e objetivos mais bem construídos. A presença de Darkseid (Ray Porter), curiosamente, melhora o vilão vivido por Ciarán Hinds. Subserviente ao mestre e disposto a fazer qualquer coisa para se redimir de um erro do passado, Lobo da Estepe é aqui um vilão bem mais interessante.

A questão é que tudo isso ainda parece muito pouco em relação ao que já vimos. A “storyline”, a linha narrativa principal, ainda é a mesma em essência. A cola que une todos esses elementos, o cimento que sustenta essa casa gigante, ainda são frágeis. Nada do que foi apresentado aqui realmente muda o problema principal do filme de Joss Whedon, que é o roteiro absolutamente simplório, a trama parca, escassa, pobre. Para uma produção que a todo momento busca salientar que é escura e sombria, Liga da Justiça é surpreendentemente tola, banal e derivativa. E sinceramente, a escolha entre duas produções tolas, uma cansativa, longa, e a outra mais dinâmica, ágil, acaba não sendo tão difícil.

Liga da Justiça de Zack Snyder não possui surpresas. Fãs do diretor, que finalmente pôde finalizar o trabalho de sua vida em sua plenitude, ficarão felizes por poderem mergulhar de cabeça em sua visão, com toda sua pompa e glória. E dificilmente alguém além deles.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

Comments

  1. Tão bom ler uma crítica sensata. Os grupos de facebook estão o puro caos com esse lançamento hahah

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