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Judas e o Messias Negro | Crítica

Judas e o Messias Negro | Crítica

Crítica de Judas e o Messias NegroJudas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah)

Ano: 2021

Direção: Shaka King

Roteiro: Will Bearson, Shaka King

Elenco: Daniel Kaluuya, LaKeith Stanfield, Jesse Plemons, Dominique Fishback, Ashton Sanders, Algee Smith, Darrell Britt-Gibson, Martin Sheen, Lil Rel Howery, Dominique Thorne, Terayle Hill

Fred Hampton foi um líder do Partido dos Panteras Negras, que lutou pela liberdade das pessoas enquanto esteve vivo. Presidente da filial de Illinois e Vice Presidente Nacional do Partido, era um revolucionário. Mais do que isso, era alguém que acreditava no melhor das pessoas, e que somente a união de todos poderia construir um futuro melhor.

Em Judas e o Messias Negro, acompanhamos os últimos anos da breve vida de Fred, vivido por Daniel Kaluuya, e como funcionavam as investidas da COINTELPRO contra as organizações revolucionárias da época. Para tanto, somos apresentados ao jovem e desencaminhado William ‘Bill’ O’Neal (LaKeith Stanfield), que é pego pela rede de contra-inteligência do FBI e transformado em um informante infiltrado no Partido.

O filme deixa bem claro já em seu título qual a proposta da história, e o papel que cada personagem terá. Quando o Diretor Geral do FBI, J. Edgar Hoover (Martin Sheen) afirma que não quer Hampton alçado ao nível de “Messias negro”, compreendemos qual será a função de Bill na trama. O paralelo com a mitologia cristã não poderia ser mais forte, e permeia a história como um todo. Fred quer mudar o mundo, unir as pessoas e dar a elas liberdade, mesmo que para isso precise recorrer à violência ocasionalmente. Mas ele não fez as regras do jogo, está apenas tentando sobreviver.

A temática da sobrevivência, aliás, se apresenta constantemente no longa ambientado na década de 60, mas poderia facilmente se passar nos dias de hoje. Há um establishment, um sistema maior e intocável, que odeia quem tenta ajudar o próximo, que usa a força policial para se manter no topo, taxando de criminoso quem ousar desafiá-lo e colocando-os à mercê dos desmandos daqueles que tem o poder. Que nunca ninguém duvide da força daqueles que se ergueram contra o sistema.

Crítica de Judas e o Messias Negro

No aspecto técnico, Judas e o Messias Negro é excelente. O roteiro é bem montado, e a história evolui de forma orgânica – nem sempre é simples fazer um filme biográfico. A direção é excelente, e Shaka King coloca seu nome entre os grandes da indústria. A escolha de planos em certas cenas traduz ao espectador o que esperar; ideias como a relação de poder de Roy Mitchell (Jesse Plemons) sobre Bill, e a caracterização de Fred Hampton como uma pessoa do povo vão sendo construídas de modo sutil, com camadas mais profundas do que somente as falas.

Destaque positivo para as atuações. Daniel Kaluuya conseguiu trazer Fred Hampton às telas de forma brilhante; desde seus discursos proferidos de forma firme e magnética até a calma no olhar durante as situações mais tensas. Não a toa foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Mas seu colega de elenco, LaKeith Stanfield, concorre na mesma categoria, e fez a atuação da sua vida até o momento. O ator, que já vinha de excelentes trabalhos, mostra sua evolução e entrega um resultado espetacular num personagem complicadíssimo, como veremos logo mais. O elenco de apoio não fica para trás, e faz com que o filme seja uma experiência única.

O destaque negativo – que não chega a ser problemático – são algumas cenas que duram um pouco mais do que o esperado. Nada que atrapalhe a narrativa do filme, mas em alguns momentos a câmera se demora um pouco mais em alguns planos que não agregam à narrativa, servem apenas para dar mais peso dramático à cena. Muito pouco para tirar o brilho da produção.

LaKeith Stanfield interpretou um personagem difícil. O título do filme é sobre ele, Bill O’Neal, responsável por espionar Fred Hampton e fornecer informações que o levariam à morte pelas mãos do FBI. Costumeiramente somos convidados a gostar e até torcer pelo protagonista dos filmes que assistimos, o que não é o caso. Judas não tenta redimir a figura histórica de Bill, nem justificar seus atos. O filme se limita a detalhar os acontecimentos daquela época, misturando a verdade com licenças ficcionais para manter a narrativa coesa, sem jamais inventar algo para pesar a figura de Bill ou endeusar Fred Hampton. Mesmo caminhando nessa linha tênue, Stanfield consegue levar o espectador a empatizar com o problemático rapaz, e mesmo que não torçamos por ele também não é possível odiá-lo. Era, como o verdadeiro Bill disse anos mais tarde, apenas mais um peão em um grande jogo.

Judas e o Messias Negro retrata um momento específico da história, mostrando o esforço e luta de um jovem líder, que buscou unir as pessoas em torno de um ideal de liberdade, mesmo que pra isso precisasse usar a força. A vida de Fred Hampton foi uma vida de luta; uma vida que ele não escolheu para si, mas que acabou sendo imposta a muita gente. Para aqueles que buscam aprender e entender melhor como a questão racial tem dirigido a história do progresso, limito-me a recomendar o documentário A 13ª Emenda, disponível na Netflix, além de reflexão e escuta ativa.

Nota:


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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