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Falcão e o Soldado Invernal – Episódio 6: Um Povo, Um Mundo | Crítica

Falcão e o Soldado Invernal – Episódio 6: Um Povo, Um Mundo | Crítica

Falcão e o Soldado Invernal (The Falcon and the Winter Soldier)

Episódio: 6 – Um Povo, Um Mundo

Criação: Malcolm Spellman

Direção: Kari Skogland

Roteiro: Dalan Musson

Elenco: Anthony Mackie, Sebastian Stan, Daniel Brühl, Wyatt Russell, Carl Lumbly, Emily VanCamp, Erin Kellyman, Adepero Oduye,  Desmond Chiam,  Miki Ishikawa

ATENÇÃO: O texto a seguir contém spoilers de Falcão e o Soldado Invernal.

Falcão e o Soldado Invernal chegou ao fim. A primeira coisa que podemos dizer é que Sam Wilson é, inquestionavelmente, o Capitão América. Em um episódio totalmente dedicado a confirmar a transição do protagonista no novo símbolo americano, a série entrega um capítulo final disperso, mas competente na sua proposta principal: fazer o público acreditar no novo (e definitivo) Capitão América. O legado de Steve Rogers está em ótimas mãos.

No review anterior, este humilde escriba havia alertado para a possibilidade de um capítulo lotado de conveniências de roteiro para que todos os personagens principais da narrativa estivessem no mesmo lugar e na mesma hora. Bom, as coincidências acontecem, mas pelo menos a série não se dedica a explicar demais o inexplicável: Wilson e Barnes já entram na cena se comunicando através de um ponto (impressionante a qualidade e o alcance desses aparelhos no Universo Marvel), Sharon… bom, simplesmente está lá, e Walker aparece na hora exata de confrontar Karli – claro.

Aliás, é desapontador observar que a série não conseguiu dar um desenvolvimento adequado à sua antagonista. Além do trabalho apagado da britânica Erin Kellyman, os roteiros da equipe de Malcolm Spellmann não ajudaram nessa composição. A radicalização da personagem não parece tomar o tempo necessário para que o público realmente passe a ficar em dúvida se a apoia ou não, o que me parece ser a intenção dos criadores. Quando ela simplesmente decide matar ou morrer por sua causa, a hesitação de seus pares apenas joga a antipatia do público em sua direção. Infelizmente, Karli Morgenthau é apenas a representação fria de um conceito, sem personalidade suficiente para que vejamos uma personagem ali.

A participação de John Walker neste episódio também é difícil de entender. Após um início que o apresentava como um pirralho birrento e sem graça e um desenvolvimento excepcional entre o quarto e o quinto episódios, Walker aparece aqui como um mero sidekick de Wilson e Barnes, sorridente e prestativo. Meio difícil comprar essa ideia depois de vê-lo ultrapassar uma linha definitiva ao desavergonhadamente assassinar um Apátrida em praça pública. Recitar uma frase de Abraham Lincoln sobre perdão antes de prender os assassinos de seu amigo é a cereja do bolo de um desfecho anticlimático, ainda mais para um personagem que se desenhava um dos mais promissores da série.

Eu já havia atentado para a problemática utilização de Sharon Carter – indo de uma agente altruísta e dedicada para uma cínica traficante de armas em Madripoor. A confirmação de uma das teorias mais faladas da internet nas últimas semanas, a de que Carter é “O” próprio Mercador do Poder, torna essa bolo ainda mais indigesto. Uma próxima temporada (ou um quarto filme do Capitão América) certamente terão de se ocupar dos motivos para tamanha mudança, porque aqui definitivamente ela não é compreensível. Aliás, falando em coisas incompreensíveis, alguém poderia explicar a utilidade de Batroc neste episódio? Estou aceitando respostas.

Felizmente, a despeito do irregular desenvolvimento do elenco de apoio, podemos afirmar que a razão de ser do show, o Falcão e o Soldado Invernal, estão sensacionais neste episódio. Vamos começar pelo último.

Barnes, ao longo de toda a série, apresenta uma jornada pessoal que consiste de abandonar um passado que o persegue para construir de um novo futuro pra si. Ao invés de ajudar o pai de uma de suas vítimas, tentando pagar uma dívida impagável, ele decide encarar de frente seus problemas e admitir ao solitário homem o que aconteceu, custe o que custar. Ao invés de se prender a um caderninho que servia apenas para alimentar sua auto piedade, ele resolve riscar os nomes e agradecer à sua terapeuta pelos serviços prestados. Ao invés de tentar resolver problemas que não possuem solução, ele opta por ajudar a família de Sam em uma exposição. O estereótipo do anti-herói durão e misterioso é rompido, e agora podemos observar um homem em paz consigo. Um desenvolvimento sensível e para um personagem que apresentava uma única dimensão nos últimos sete anos, conduzido de forma competentíssima por Sebastian Stan.

E, por fim, chegamos ao novo Capitão América. Seguindo a tradição iniciada por Steve Rogers, Sam Wilson, vivido magistralmente por Anthony Mackie, não precisa do soro do super soldado para provar seu valor. O diálogo com Zemo em que ele não hesita em recusar a substância ecoa de forma contundente aqui. Pequenas atitudes demonstram que o herói não está interessado em ser mais “macho” do que seus oponentes, e sim em resolver a situação e salvar o maior número de pessoas possível – demonstrado quando desiste de lutar com Batroc para resgatar reféns de um helicóptero em movimento, ou quando se recusa a entrar em combate com Karli. Sam acredita nas pessoas mesmo que não acreditam nele, o que demonstra uma grandeza de caráter difícil de ser atingida – ainda mais quando se coloca em perspectiva a questão racial inerente à sua jornada.

Embora o discurso em frente às câmeras tenha ficado no limite do cafona, a tocante cena da homenagem para Isaiah Bradley é definidora de toda a proposta da série. O rancor das pessoas que foram escanteadas pelo sistema é justificável e compreensível, mas Sam decide ser aquele que aponta para um novo caminho. Com todo o cuidado para não vilanizar as pessoas que já acreditam mais naquele escudo, Falcão… defende que ele ainda possui significado. Sam Wilson não é um King, um Malcolm ou um Mandela, como diz Bradley, mas dentro do Universo Marvel talvez seja o melhor representante destes.

No fim das contas, mesmo com um desenvolvimento duvidoso de seu elenco de apoio e uma falta de imaginação evidente para o espetáculo (o homem possui asas e um escudo, Disney. Tenho certeza que consegue fazer algo bem melhor do que dar piruetas), Falcão e o Soldado Invernal se configura como mais um acerto da Marvel em sua incursão no Disney+. Mesclando uma dose certeira de personagens cativantes (e falo especialmente da dupla de protagonistas e do incrível Zemo), suspense, intriga e um discurso inspirador e contagiante, o show assenta a Marvel como uma das produtoras de conteúdo mais relevantes de toda Hollywood. Poucos estúdios têm conseguido arrancar palmas e lágrimas na mesma medida e com tanta competência.

Nota:


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Jornalista em formação, ex-membro do finado e saudoso Terra Zero e leitor de histórias em quadrinhos. Fã de ficção científica e terror, divide seu tempo livre entre o cuidado com suas dezenas de gatos e a paixão pela cultura pop. Sonha com o dia em que perceberão que arte é sim, uma forma de discutir política.

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