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Army of the Dead: Invasão em Las Vegas | Crítica

Army of the Dead: Invasão em Las Vegas | Crítica

Army of the Dead: Invasão em Las Vegas (Army of the Dead)

Ano: 2021

Direção: Zack Snyder

Roteiro: Zack Snyder, Shay Hatten, Joby Harold

Elenco: Dave Bautista, Ella Purnell, Omari Hardwick, Ana de la Reguera, Theo Rossi, Matthias Schweighöfer, Nora Arnezeder, Hiroyuki Sanada, Garret Dillahunt, Tig Notaro, Raúl Castillo, Huma Qureshi, Samantha Win, Richard Cetrone, Athena Perample

Las Vegas é a cidade das possibilidades. Com seus luxuosos hotéis e cassinos é um convite para sonhos e apostas. Quem não gostaria de ficar rico apostando e deixando que o acaso faça seu trabalho? Um resultado positivo com pouco esforço parece ser o objetivo de Zack Snyder em Army of the Dead: Invasão em Las VegasMas ao contrário do que podíamos esperar, parece que a sorte não sorriu ao diretor.

No filme, vemos a cidade do pecado sucumbir à um zumbi/alienígena que escapou do exército americano após um acidente durante seu transporte. Numa bonita sequência inicial – um dos acertos do filme – entendemos o que aconteceu na cidade e como as autoridades lidaram com isso; além, é claro, de conhecermos superficialmente alguns personagens da trama, entre eles Scott Ward (Dave Bautista). Ward – após salvar um figurão do governo americano – passa a trabalhar em uma lanchonete, onde é convidado por uma figura misteriosa a retornar a Las Vegas e recuperar uma grande quantia de dinheiro que ficou para trás.

Com a motivação em campo, o distante porém carismático mercenário começa a recrutar uma equipe, retomando contato com antigos parceiros e buscando novos conhecidos para completar os requisitos do trabalho. Até aí desenhava-se um belo filme de assalto, mesmo que situado em meio ao caos de uma infestação zumbi (ou seria alienígena?). Ainda nos primeiros 30 minutos de filme, porém, somos lembrados que este é um filme de terror, portanto é de bom tom evitar se apegar aos personagens. Ah, e haverá drama também. Bastante drama. Preferencialmente em câmera lenta.

É preciso destacar que o filme, de forma geral, é esforçado. O elenco é ótimo, e o empenho de todos em viver aquela história é notável, com grande destaque para Matthias Schweighöfer interpretando Dietter, o especialista em cofres. Com uma personalidade ingênua e comicamente educado, é facilmente o melhor personagem do filme. Além disso, a maquiagem é muito bonita, e a computação gráfica é bem feita. Nos aspectos técnicos, o único defeito é a quantidade exagerada de cenas fora de foco e/ou mal iluminadas. As vezes Zack Snyder parece esquecer que o espectador gostaria de ver o filme.

É preciso reconhecer também a inovação que Army traz ao folclore zumbi. Ao deixar sua origem em aberto (é um experimento? Se trata de uma raça desconhecida? Ou é uma criatura alienígena?) e construir a ideia de diferentes níveis hierárquicos, a trama de mortos-vivos ganha um respiro; ainda que não seja o suficiente para aterrorizar ninguém, as cenas de perseguição e captura causam aflição a quem assiste.

No cinema, infelizmente, colocar boas ideias uma após a outra como se fossem moedinhas numa máquina caça-níquel não é o suficiente para sustentar um filme – ainda mais quando o longa tem duas horas e 15 minutos. Army pode ser resumido nesse conceito: uma aposta longa, estranha, e que vai do nada a lugar nenhum. A ideia de mercenários invadindo uma cidade zumbi com a ameaça de uma bomba nuclear a qualquer momento é muito interessante. Empolga. É a receita perfeita para adrenalina e ação, que acaba desperdiçada numa história arrastada, ancorada por dramas pessoais entre personagens rasos e mal construídos.

Os últimos filmes de Zack Snyder têm uma constante: os diálogos são fracos, e a história se apoia demais neles. As interações entre as pessoas soam forçadas e não naturais, e mesmo com o esforço do elenco o resultado fica prejudicado. No longa de 2021, a bela e criativa sequência inicial contribui para esse resultado negativo: as situações são apresentadas rapidamente – numa trama que , por si só, daria um excelente filme – e a falta de tempo para criar um vínculo com os personagens acaba fazendo com que seus desfechos não sejam sentidos da forma que o diretor esperava.

Uma das virtudes do filme acaba, novamente, se tornando um problema: os clichês. Army os recebe de braços abertos, colocando-os aqui e ali para trabalhar de forma eficiente certos pontos da trama e poupar tempo de tela. Tudo certo até aí. O problema começa quando os personagens tomam decisões que desafiam a inteligência do espectador, e em determinado momento começamos a questionar o tamanho real da ameaça dos zumbis – que, convenientemente, deixam de ser tão ameaçadores assim – além das habilidades dos personagens – que, convenientemente, tornam-se especialistas em tiro à curta e longa distância. Quanto mais difícil uma situação deveria ser, mais habilidosos os mercenários ficam, ao mesmo tempo em que fazem escolhas um tanto quanto estúpidas.

O mais problemático dos clichês, contudo, é o que mais desafia a paciência do espectador – e por incrível que pareça, os filmes parecem amá-lo! Dentro de 30 minutos uma bomba atômica cairá sobre a cidade e dizimará os zumbis – e quem mais estiver por lá – de uma vez por todas. Obviamente não há momento melhor na vida para caminhar a passos lentos, resolver dramas do passado e ter conversas profundas sobre o futuro. Não há motivo para pressa, afinal de contas o caminho está limpo até a saída, e será muito simples um grupo de nove ou dez pessoas sair do subsolo carregando muito dinheiro e equipamentos pesados. Em pleno 2021 ainda vemos esse tipo de coisa acontecer em filmes onde os personagens são – ou deveriam ser – especialistas naquilo que estão fazendo.

De todo modo, o final do filme estraga a experiência. Não importa por quem você está torcendo ou por quem você se apegou, o desfecho da história irá decepcioná-lo. Depois, você ficará feliz apenas para se frustrar novamente. É difícil entender qual foi a ideia do roteiro nos últimos momentos do filme, mas fica a sensação que acompanhamos uma longa história – muito maior que o necessário – para não ter satisfação nenhuma ao fim. Frustrante que termine do jeito que terminou (peço desculpas pela redundância, estou tentando limitar os spoilers ao mínimo necessário).

Por se levar muito a sério, o longa tropeça sobre si mesmo, e a sequência de desfechos dos dramas pessoais é um obstáculo à resolução do filme, e acaba tornando a experiência um tanto quanto frustrante. O potencial era de um grande entretenimento, mas a vontade de Snyder em tornar tudo muito profundo mais atrapalha do que ajuda. A nota só não é pior pela competência e empenho de todas as partes em entregar um bom trabalho.

Nota: 


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Ator, escritor, diretor e roteirista, Gabryel é ruim em todas essas coisas. Crítico por natureza, adora reclamar de tudo, e é fã de filmes que ninguém tem paciência pra assistir. Carrega a convicção de que Click é um clássico cult e quem discorda é clubista.

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