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Cruella | Crítica

Crítica de Cruella, com Emma Stone

Cruella

Ano: 2020

Direção: Craig Gillespie

Roteiro: Dana Fox, Tony McNamara

Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Emily Beecham, Kirby Howell-Baptiste, John McCrea, Kayvan Novak, Mark Strong

Ame-os ou odeie-os, os remakes em live-action da Disney vieram para ficar. O estúdio descobriu uma forma eficiente de ganhar dinheiro com nostalgia ao criar novas produções se baseado em seus próprios clássicos. Mesmo que as animações continuem sendo melhores, os novos filmes são um sucesso até quando não agradam tanto, como é o caso de O Rei Leão. Como 101 Dálmatas já tem dois live-action que foram um sucesso na época do lançamento, foi decidido que Cruella de Vil, vilã imortalizada por Glenn Close, receberia seu próprio spin-off/história de origem da mesma forma que aconteceu com Malévola. Aí veio a pergunta, como você transforma uma antagonista gananciosa que quer arrancar a pele de filhotinhos para fazer roupas em uma heroína?

Nesta adaptação, Cruella é Estella Miller (Emma Stone), uma jovem rebelde que desde cedo lida com uma dupla personalidade apelidada de Cruella. A garota aprende a esconder os seus impulsos mais violentos com a sua mãe, Catherine (Emily Beecham). No entanto, após ficar órfã de forma trágica, Estella se junta a uma dupla de ladrões Jasper (Joel Fry) e Horace (Paul Walter Hauser) onde ela consegue usar seu lado insidioso bem como sua habilidade como estilista para aplicar diversos golpes.

Quando adulta, o caminho da protagonista cruza com o da Baronesa von Hellmann (Emma Thompson), uma poderosa e influente fashionista envolvida com a morte da mãe da Estella. A dinâmica das duas se assemelha ao visto em O Diabo Veste Prada, a novata aprendendo com a implacável chefe no mundo da moda, até que de iniciante, Estella passa a antagoniza-la ao trazer à tona sua personalidade de Cruella, agora como um novo e afrontoso ícone da moda que pretende acabar com o reinado da Baronesa.

Enquanto a maior parte dos live-actions da Disney são cópias de seus originais, só que sem alma, esta produção tem liberdade criativa o suficiente para desenvolver a sua própria identidade. E que decisão acertada. A direção de Craig Gillespie é ágil, dinâmica e muito envolvente. Logo na cena de introdução, com a narração contado das confusões em que a jovem Estella se metia, é possível ver o quão divertido e diferente é o filme, se comparado com os demais projetos similares.

A parte técnica como um todo é impecável. Os figurinos desenhados pela duas vezes ganhadora do Oscar Jenny Beavan, de Mad Max: Estrada da Fúria, são as verdadeiras estrelas do longa. Impressionantes, magníficos e insanos quanto a protagonista: os vestidos sempre se destacam e os looks cada vez mais espalhafatosos inventados pela Cruella são um deleite. O design de produção cria uma Londres glamourosa dos anos 70 estonteante e a trilha composta pelo talentoso Nicholas Britell é ótima – pena que constantemente eclipsada pela inspirada escolha de músicas que vai de Bee Gees a The Doors, Nina Simone a Queen.

Emma Stone está excelente como a vilã e sua atuação não pode ser comparada com a de Glenn Close, ambas interpretam Cruellas totalmente diferentes. Aqui Stone consegue ser imensamente carismática e cativante mesmo quando está sendo má, também convencendo nos momentos mais dramáticos. Emma Thompson também está ótima e se divertindo muito em cena como a Baronesa. O elenco de apoio é igualmente bom, uma vez que a galeria de personagens secundários é excelente: Jasper, Horace, Anita Darling (Kirby Howell-Baptiste), Artie (John McCrea) e Roger Dearly (Kayvan Novak), todos deixam a sua marca. Mark Strong acaba sendo o único desperdiçado aqui, mesmo que tentem dar mais dimensão ao seu capanga no terceiro ato.

Com tanta competência em todos os departamentos (com a exceção dos cachorros de CGI, que nunca convencem) é uma pena que logo o roteiro que falhe tanto. Cruella é longe de ser um filme ruim, mas é bastante inconstante, oscilando entre puro brilhantismo e momentos que deixam a desejar. A reviravolta do clímax não é tão eficiente quanto deveria, algumas facilitações de roteiro não descem (como um cachorro engolir um objeto e não o defecar mesmo depois de dias?) e o ritmo no geral não funcionam.

Uma oportunidade perdida, como já era de se esperar, é que em nenhum momento essa representação da Cruella é tão má assim. Tal como aconteceu com a Malévola, até as ações mais reprováveis da protagonista são justificados dentro da lógica interna de que ela teve um passado trágico. Os golpes e pequenos furtos que ela aplica com Horace e Jasper são divertidos, qualquer ação ruim aplicada contra a Baronesa não é tão ruim assim porque a Baronesa é uma pessoa horrível e o pior que Estella faz é tratar mal os amigos quando ela deixa se levar pela vingança.

Desde o começo simpatizamos com ela desde criança por querer quebrar os padrões de moda da sociedade, se vingar dos valentões da escola que sempre saiam impunes e ser sempre injustiçada pelo diretor. Em nenhum momento a vemos como uma vilã propriamente dita. É uma pena que a Disney não consiga mais deixar seus vilões serem apenas vilões malvados e agora tentam enquadrar todos como anti-heróis.

Tal qual sua protagonista título, Cruella é divertido, surtado, desequilibrado e muito deslumbrante. É impossível ver como essa versão se tornaria a vilã de 101 Dálmatas, mas, se a produção for um sucesso, vale a pena ver o que a Disney fará a seguir com a personagem, afinal, Emma Stone nunca é demais.

Nota:

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Estudante de jornalismo, tem 21 anos e é assistidor de séries semi profissional. Viciado em cinema desde sempre, nunca trabalhou na área e pretende mudar isso algum dia. Fã do Studio Ghibli, slashers e musicais, adora cinema sul-coreano e nas suas formas de vingança.

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